As relações interpessoais e o TDAH
Principais aspectos das relações interpessoais e o TDAH
EMOÇÕES, AUTOESTIMA E RELAÇÕES
Neuropsicólogo Mauricio Maluf Barella CRP 06/178046
12/15/20255 min ler


Relações Interpessoais e Sintomas que Afetam os Vínculos: Uma Perspectiva Neuropsicológica
As relações interpessoais são estruturadas sobre pilares como comunicação eficaz, empatia, confiança e a capacidade de resolução de conflitos. No entanto, indivíduos que apresentam alterações cognitivas e comportamentais — especialmente nas funções executivas e emocionais — podem vivenciar sérias dificuldades nesse campo, mesmo mantendo o desejo de se conectar com os outros. Este texto explora como sintomas como desatenção, impulsividade e disfunções na regulação emocional podem impactar negativamente os vínculos sociais e afetivos, e como esses impactos não necessariamente refletem falhas de caráter, mas sim limitações neurofuncionais.
1. A base neuropsicológica das interações humanas
O funcionamento cognitivo saudável é crucial para que uma pessoa consiga manter interações interpessoais consistentes. A atenção sustentada, a memória de trabalho, a inibição de impulsos e o controle emocional fazem parte do repertório necessário para escutar, responder adequadamente, perceber pistas sociais e refletir antes de agir. Essas habilidades fazem parte das chamadas funções executivas, processadas majoritariamente pelo córtex pré-frontal .
Indivíduos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), por exemplo, tendem a apresentar falhas em funções executivas que comprometem sua capacidade de manter o foco em conversas, controlar impulsos verbais e emocionais, e responder de forma socialmente adequada em contextos de estresse. Essas falhas podem gerar desentendimentos frequentes, o que, a longo prazo, prejudica vínculos sociais e familiares.
2. Comunicação e escuta: impactos da desatenção
A comunicação é um processo ativo que exige escuta, processamento e resposta. A desatenção, sintoma característico de diversos transtornos do neurodesenvolvimento, pode ser interpretada por interlocutores como desinteresse, egoísmo ou má educação. No entanto, trata-se de uma falha no sistema de atenção sustentada, que compromete a retenção de informações e a manutenção do foco.
A dificuldade em reter o conteúdo de uma conversa, por exemplo, pode gerar mal-entendidos e respostas desconexas, deteriorando a qualidade da interação. Em ambientes de trabalho ou escolares, isso pode ser interpretado como descompromisso, reforçando estigmas negativos sobre a pessoa.
3. Impulsividade e conflitos
A impulsividade, por sua vez, é outro fator que interfere nos vínculos. Ela se manifesta por meio de falas abruptas, interrupções frequentes, respostas agressivas ou inadequadas ao contexto social. Em relacionamentos íntimos, essas manifestações podem ser erroneamente percebidas como desrespeito ou falta de empatia.
Estudos indicam que a impulsividade está fortemente associada a dificuldades na regulação emocional, principalmente em indivíduos com TDAH, transtornos do espectro do autismo e transtornos de personalidade. Isso torna mais provável que tais indivíduos reajam de forma exacerbada a frustrações cotidianas, desencadeando conflitos recorrentes e dificultando a reparação do vínculo após desentendimentos.
4. Empatia e regulação emocional
A empatia envolve não apenas o reconhecimento das emoções do outro, mas também a capacidade de responder de forma apropriada. Em quadros de disfunção executiva, a regulação emocional comprometida pode afetar diretamente a empatia percebida.
Em contextos como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, a pessoa pode até perceber o sofrimento alheio, mas ter dificuldade em demonstrar isso de maneira verbal ou gestual, o que pode ser erroneamente interpretado como frieza emocional. A ausência de expressividade emocional não deve ser confundida com falta de sentimento.
5. Resolução de conflitos
A resolução de conflitos requer habilidades como pensamento flexível, capacidade de ponderação e linguagem assertiva. Indivíduos com déficits em planejamento e organização mental podem apresentar dificuldades em propor soluções, reconhecer sua responsabilidade em desentendimentos ou compreender a perspectiva do outro. Isso gera um ciclo de conflitos não resolvidos, aumentando a tensão relacional e levando ao distanciamento emocional.
Além disso, a ruminação mental — comum em pessoas com transtornos de ansiedade ou depressão — pode intensificar a sensação de rejeição ou injustiça, mesmo diante de pequenos atritos, dificultando ainda mais a negociação pacífica.
6. Relações e o julgamento social: o risco da estigmatização
Conflitos recorrentes em relacionamentos podem ser consequência indireta dos sintomas cognitivos e emocionais, e não de traços de personalidade ou caráter. No entanto, muitos desses sintomas permanecem invisíveis socialmente e, por isso, os comportamentos decorrentes são frequentemente mal interpretados como negligência, grosseria ou egoísmo.
A estigmatização social de pessoas com disfunções neuropsicológicas pode aumentar o risco de isolamento, baixa autoestima e sintomas depressivos, fechando um ciclo vicioso de afastamento social e sofrimento emocional.
7. O papel da avaliação neuropsicológica
A avaliação neuropsicológica é fundamental para identificar o impacto relacional das disfunções cognitivas. Ela permite uma compreensão mais ampla do sujeito, além de promover intervenções mais eficazes tanto no âmbito individual quanto relacional.
Por meio de instrumentos que avaliam atenção, memória, funções executivas e habilidades sociais, é possível traçar um perfil detalhado das capacidades e dificuldades do indivíduo, oferecendo subsídios para psicoterapia, orientação familiar e adaptação escolar ou profissional.
8. Estratégias de manejo e intervenção
Diversas estratégias podem ser adotadas para mitigar o impacto dos sintomas sobre os relacionamentos. Entre elas:
Terapia cognitivo-comportamental (TCC): ajuda na modulação de impulsos e na reestruturação de pensamentos disfuncionais;
Treinamento de habilidades sociais: melhora a comunicação assertiva e a resolução de conflitos;
Mindfulness e regulação emocional: promovem maior consciência dos estados emocionais e autocontrole;
Orientação familiar e psicoeducação: reduz mal-entendidos e melhora a empatia entre os membros da família ou casal.
Conclusão
Relações interpessoais são diretamente afetadas por fatores neuropsicológicos, especialmente quando há déficits em atenção, impulsividade e regulação emocional. Compreender que tais dificuldades decorrem de processos neurobiológicos e não de falhas morais ou desinteresse é essencial para construir ambientes mais empáticos e inclusivos. A avaliação neuropsicológica surge como uma ferramenta poderosa para iluminar essas nuances e direcionar intervenções mais humanas e eficazes.3
As dificuldades nas relações interpessoais associadas ao TDAH raramente se explicam apenas por aspectos de personalidade. Elas costumam estar relacionadas a dificuldades de regulação emocional, impulsividade e impacto cumulativo na autoestima. Quando esses padrões se repetem em diferentes contextos, um rastreio clínico estruturado pode ajudar a organizar essas informações de forma mais objetiva.
Referências
American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Revisão de Texto.
Fonseca, R. P. (2020). Funções executivas e desenvolvimento social. Revista Neuroeducação.
Hounie, A. G., & Camargos Jr., W. (2005). Manual clínico do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.
Yates, D. B., Silva, M. A., & Bandeira, D. R. (2019). Avaliação psicológica e desenvolvimento humano: Casos clínicos.
Avaliação neuropsicológica – Parecer Clínico. (2024). Caso Francisco Carvalho .
Avaliação neuropsicológica – Laudo Clínico. Caso Alexandre da Silva Nogueira.
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