A autoestima e os sintomas do TDAH
O papel da autoestima nas funções cognitivas
EMOÇÕES, AUTOESTIMA E RELAÇÕES
Neuropsicólogo Mauricio Maluf Barella CRP 06/178046
12/15/20255 min ler


Pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) frequentemente enfrentam um tipo de sofrimento psicológico que não é imediatamente visível. Trata-se de um sofrimento construído ao longo do tempo, moldado pela experiência contínua de fracassos percebidos, críticas reiteradas e sentimentos persistentes de inadequação. Embora o TDAH seja um transtorno do neurodesenvolvimento amplamente reconhecido e descrito no DSM-5-TR, suas manifestações internas e subjetivas frequentemente passam despercebidas, gerando impactos significativos na autoestima, motivação e qualidade de vida.
As feridas silenciosas da crítica constante
A crítica recorrente é uma das experiências mais relatadas por indivíduos com TDAH desde a infância. Crianças com dificuldades de manter o foco, terminar tarefas ou obedecer comandos de forma adequada frequentemente são taxadas como "desleixadas", "preguiçosas" ou "desobedientes" — rótulos que, repetidos por figuras de autoridade como pais e professores, constroem uma narrativa interna de incompetência. Essa exposição precoce e prolongada a avaliações negativas pode instaurar o que Beck (1967) descreve como uma crença central negativa, essencial para o desenvolvimento de quadros depressivos e ansiosos.
Essa crítica, ainda que nem sempre agressiva, tende a ser internalizada. Com o tempo, a voz crítica externa se transforma em autocrítica: o sujeito passa a se culpar por não conseguir "ser como os outros", mesmo quando se esforça. A persistência desse ciclo compromete o senso de agência, reduzindo a capacidade do indivíduo de buscar alternativas ou acreditar em sua própria eficácia.
Sensação de inadequação e comparação constante
Outro fator que intensifica o sofrimento é a comparação social. O indivíduo com TDAH frequentemente observa que seus pares parecem conseguir realizar tarefas com facilidade — seja no ambiente escolar, profissional ou familiar. Esse contraste entre o esforço interno e o desempenho externo esperado gera um sentimento persistente de inadequação.
Segundo a Teoria da Comparação Social (Festinger, 1954), indivíduos avaliam suas habilidades e conquistas com base nos outros. No caso do TDAH, esse mecanismo pode ser cruel: a discrepância entre intenção e resultado, mediada por dificuldades executivas, acaba sendo interpretada como falha pessoal. Essa autocomparação constante pode promover sentimentos de vergonha, inutilidade e desesperança, todos associados a maior risco de comorbidades, como depressão e transtornos de ansiedade.
A baixa autoestima como mediadora do sofrimento
A autoestima reduzida é um dos efeitos mais contundentes do acúmulo de experiências negativas em pessoas com TDAH. Ela não nasce da falta de autoconhecimento, mas sim da vivência repetida do fracasso, da punição e da decepção — tanto dos outros quanto de si mesmo. Estudos demonstram que a autoestima atua como mediadora entre sintomas de TDAH e saúde mental geral (Miller et al., 2007), sendo um fator de proteção importante contra o desenvolvimento de sintomas clínicos mais severos.
O Manual Clínico do TDAH destaca que a experiência subjetiva de quem convive com o transtorno vai além dos sintomas nucleares (desatenção, impulsividade e hiperatividade), alcançando dimensões como autoconfiança e autoconceito. Quando não reconhecida e abordada, a baixa autoestima pode perpetuar um ciclo de autossabotagem.
Efeitos em cadeia: procrastinação, evitação e desempenho
A baixa autoestima decorrente das experiências negativas vividas por quem tem TDAH não é apenas um sintoma isolado — ela influencia comportamentos que, por sua vez, alimentam o próprio transtorno. Um exemplo claro é a procrastinação, que pode ser intensificada pela percepção antecipada do fracasso. Quando a pessoa acredita que não será capaz de completar uma tarefa com sucesso, tende a adiá-la indefinidamente, mesmo que isso agrave as consequências.
A evitação é outro comportamento comum. Ela ocorre como uma tentativa de proteger-se de críticas e fracassos futuros. Infelizmente, essa estratégia de coping, apesar de inicialmente aliviar a ansiedade, leva a prejuízos cumulativos: compromissos não cumpridos, metas abandonadas, relacionamentos fragilizados e um aumento da sensação de incapacidade.
O desempenho acadêmico ou profissional inevitavelmente sofre, não apenas por déficits de atenção ou memória de trabalho — frequentemente afetadas no TDAH — mas também pela carga emocional envolvida nas tarefas cotidianas. A neuropsicologia reconhece que funções executivas como autorregulação emocional, planejamento e organização estão comprometidas em muitos casos de TDAH, tornando essas dificuldades "invisíveis" para quem vê apenas os resultados externos.
Compreendendo o sofrimento subjetivo
Compreender esse domínio psicológico do TDAH — que envolve crítica interna, sentimento de inadequação e desvalorização pessoal — é essencial para uma abordagem clínica efetiva. O sofrimento subjetivo não é menos real por ser invisível. Muito pelo contrário, ele frequentemente é o motor por trás de sintomas comportamentais que parecem voluntários ou controláveis por observadores externos.
Em um estudo de caso apresentado por Yates, Silva e Bandeira (2019), observou-se que a compreensão empática das vivências internas do paciente foi fundamental para a formulação de intervenções mais eficazes, incluindo estratégias de regulação emocional e reestruturação cognitiva, além de suporte psicoeducacional para os familiares.
Implicações clínicas e psicoterapêuticas
Do ponto de vista clínico, o reconhecimento das “dificuldades invisíveis” deve guiar não apenas o diagnóstico, mas também a intervenção. Uma avaliação neuropsicológica que investigue além do desempenho objetivo — considerando aspectos emocionais, sociais e subjetivos — permite uma compreensão mais integral do paciente e de seu sofrimento.
Em termos psicoterapêuticos, abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) têm se mostrado eficazes ao trabalhar com a reestruturação das crenças disfuncionais de inadequação e autocrítica. Além disso, estratégias baseadas em mindfulness vêm sendo utilizadas para auxiliar pacientes com TDAH na melhoria da autorregulação emocional e na redução da reatividade aos próprios erros【5OHlFRUpxVnxQPJqvXHgzoW7†Neurociência e Mindfulness】.
Considerações finais
As dificuldades invisíveis que acompanham o TDAH são tão relevantes quanto os sintomas diagnósticos observáveis. A crítica constante, o sentimento de inadequação e a comparação social não são apenas consequências do transtorno — são também gatilhos e perpetuadores de seu impacto psicológico. A baixa autoestima, em especial, não deve ser encarada como mero efeito colateral, mas como um fenômeno central que influencia a dinâmica comportamental e emocional do paciente.
Por isso, profissionais de saúde mental devem estar atentos não apenas ao comportamento, mas à experiência interna do sujeito. Somente assim será possível oferecer intervenções verdadeiramente humanizadas, baseadas em compreensão empática e suporte técnico-científico.
Ao longo do desenvolvimento, dificuldades persistentes em funções executivas, desempenho acadêmico e relações interpessoais podem contribuir para uma autoestima fragilizada em pessoas com TDAH. Um rastreio clínico permite compreender se esses impactos refletem padrões neurocognitivos consistentes ao longo do tempo.
Referências:
American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto Revisado.
Beck, A. T. (1967). Depression: Clinical, experimental, and theoretical aspects. Harper & Row.
Festinger, L. (1954). A theory of social comparison processes. Human Relations, 7(2), 117–140.
Miller, T. W., Kraus, R. F., & Bersani, G. (2007). Self-esteem and psychiatric disorders: A cross-sectional and longitudinal study. Journal of Psychiatric Practice.
Hounie, A. G., & Camargos, W. (2005). Manual Clínico do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade.
Yates, D. B., Silva, M. A., & Bandeira, D. R. (2019). Avaliação Psicológica e Desenvolvimento Humano: Casos Clínicos.
Fonseca, R. P. (2019). Funções Executivas e Neuroeducação.
Cosenza, R. M., & Guerra, L. B. (2019). Neurociência e Mindfulness: Meditação, Equilíbrio e Bem-Estar【5OHlFRUpxVnxQPJqvXHgzoW7†source】.
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