Atenção: núcleo central do TDAH
Aspectos atencioanais nos pacientes com tdah
Neuropsicólogo Mauricio Maluf Barella CRP 06/178046
12/15/20255 min ler


A atenção é uma função neurocognitiva fundamental, frequentemente comprometida no Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Entretanto, tratá-la como um processo único e isolado é uma concepção ultrapassada. A neurociência contemporânea reconhece a atenção como um conjunto de subprocessos interdependentes, que englobam mecanismos distintos, como a atenção sustentada, seletiva, alternada e dividida .
Compreender essas dimensões é essencial para diferenciar o TDAH de outras condições clínicas com manifestações atencionais secundárias, como ansiedade, privação de sono, estresse, depressão, transtornos do espectro autista (TEA) e até mesmo dificuldades escolares específicas. Neste texto, discutiremos a atenção como um núcleo do TDAH, mas não exclusivo, explorando seus componentes, manifestações clínicas e implicações diagnósticas.
1. O que é Atenção?
A atenção pode ser definida como o processo pelo qual o sistema nervoso central seleciona e mantém o foco em estímulos relevantes, suprimindo informações distrativas. Segundo Mirsky et al. (1991), a atenção é um constructo multifatorial, dividido em ao menos cinco componentes: foco/exatidão, resistência (atenção sustentada), capacidade de mudança (atenção alternada), estabilidade, e capacidade de codificação.
A atenção é, portanto, uma função dinâmica que modula o funcionamento de outras funções cognitivas, como memória de trabalho, linguagem e funções executivas. Seu comprometimento pode gerar desorganização cognitiva generalizada e impacto funcional significativo.
2. Subtipos de Atenção
As categorias mais reconhecidas atualmente são:
Atenção sustentada: capacidade de manter o foco em um estímulo ou tarefa por longos períodos.
Atenção seletiva: habilidade de filtrar estímulos irrelevantes e manter o foco no alvo.
Atenção alternada: capacidade de alternar entre tarefas ou focos distintos.
Atenção dividida: habilidade de processar múltiplos estímulos simultaneamente.
Cada um desses processos envolve redes neurais específicas. Por exemplo, a atenção sustentada está fortemente ligada ao funcionamento do córtex pré-frontal direito e da rede atencional dorsal, enquanto a atenção alternada exige maior integração entre os hemisférios cerebrais, por meio do corpo caloso.
3. Atenção no TDAH
O TDAH, segundo o DSM-5-TR, é caracterizado por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento ou desenvolvimento do indivíduo. Embora o termo "déficit de atenção" seja parte integrante do nome do transtorno, o déficit atencional observado no TDAH não é homogêneo nem exclusivo desse diagnóstico.
As dificuldades mais comuns incluem:
Distração fácil diante de estímulos irrelevantes.
Dificuldade em manter o foco em tarefas repetitivas ou pouco estimulantes.
Lapsos frequentes de atenção (mind-wandering).
Sensação subjetiva de “mente acelerada”.
Dificuldade em completar tarefas ou seguir instruções.
Esses sintomas podem estar relacionados tanto a déficits na atenção sustentada quanto em falhas nos mecanismos de autorreferenciamento e controle inibitório, ambos associados às funções executivas.
4. Atenção como Função Executiva
A atenção, especialmente a sustentada e a alternada, é frequentemente classificada dentro do domínio das funções executivas, por estar diretamente ligada ao controle atencional top-down. Isso significa que sua regulação depende da capacidade do indivíduo em monitorar, planejar e ajustar seu foco conforme a tarefa.
Segundo Barkley (1997), um dos maiores teóricos do TDAH, o transtorno deve ser entendido principalmente como um déficit de inibição comportamental, o que impacta a capacidade do indivíduo de modular sua atenção e comportamento conforme o contexto.
Essa perspectiva nos ajuda a entender por que muitas crianças com TDAH não apresentam dificuldades atencionais quando envolvidas em atividades altamente motivadoras (como videogames), mas falham diante de tarefas rotineiras, escolares ou monótonas.
5. Diagnóstico Diferencial
Dificuldades atencionais também podem ser observadas em uma variedade de outros contextos clínicos. Por isso, é essencial diferenciar entre:
Déficits atencionais persistentes: associados a quadros como TDAH e Transtornos do Neurodesenvolvimento.
Quedas atencionais transitórias: observadas em estados de ansiedade, estresse agudo, privação de sono, depressão ou sobrecarga emocional.
Um bom exemplo são crianças em situações de vulnerabilidade social, cujos déficits atencionais podem ser mais reativos ao ambiente do que reflexo de um transtorno neurobiológico. Nesses casos, a avaliação deve incluir dados contextuais, relatos escolares e familiares, bem como testes padronizados e medidas ecológicas de funcionamento.
6. Avaliação Neuropsicológica da Atenção
A avaliação clínica da atenção não deve se restringir a testes de lápis e papel, como o Teste de Cancelamento ou o Stroop, mas envolver uma abordagem integrada, com entrevistas, questionários comportamentais (como o SNAP-IV, Conners), observação direta e análise funcional do comportamento.
Além disso, instrumentos como o WISC-V (Índice de Velocidade de Processamento e Memória de Trabalho), o Teste de Atenção por Cancelamento e tarefas digitais contínuas de performance (CPTs) podem contribuir para identificar padrões de atenção sustentada e inibição de respostas.
Importante lembrar: os testes não medem a atenção de forma isolada, mas sua manifestação funcional em tarefas específicas. A atenção deve sempre ser interpretada dentro de um contexto mais amplo.
7. Impacto Funcional
Mais do que medir o desempenho atencional em ambiente controlado, a clínica precisa compreender como esses déficits impactam a vida diária do indivíduo — seja no rendimento escolar, nas relações sociais, ou no bem-estar emocional.
Nesse sentido, escalas comportamentais preenchidas por pais e professores são fundamentais para captar o impacto ecológico das dificuldades atencionais. Isso permite diferenciar um "mau desempenho em teste" de uma "disfunção real no cotidiano", algo essencial para uma formulação diagnóstica ética e eficaz.
8. Intervenções Baseadas no Perfil Atencional
O tratamento do TDAH com foco na atenção envolve:
Psicoeducação para pais e professores.
Intervenções comportamentais com foco em estratégias de autorregulação.
Terapias cognitivas para treino de atenção e funções executivas.
Farmacoterapia, quando indicada, com psicoestimulantes (como metilfenidato), que atuam nos circuitos dopaminérgicos e noradrenérgicos associados ao controle atencional.
Treinos específicos, como o uso de softwares para treinamento cognitivo, mindfulness infantil, e jogos estruturados, podem ser eficazes para modular a atenção e promover autorregulação【5OHlFRUpxVnxQPJqvXHgzoW7†Neurociência e Mindfulness†L20-L40】.
Considerações Finais
A atenção é, de fato, um dos núcleos centrais do TDAH, mas sua análise isolada pode induzir a erros diagnósticos graves. O desafio da avaliação neuropsicológica está em diferenciar déficits atencionais primários daqueles secundários, considerando as múltiplas causas possíveis e os impactos funcionais reais.
Além disso, deve-se sempre lembrar que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento complexo, com heterogeneidade clínica, que exige uma abordagem multiprofissional, longitudinal e contextualizada.
Por fim, nenhuma hipótese diagnóstica deve ser considerada definitiva sem a avaliação criteriosa por profissionais especializados, com base em critérios científicos, éticos e empáticos.
Alterações atencionais no TDAH impactam diretamente a memória funcional, o planejamento e a capacidade de manter desempenho consistente ao longo do dia. Fatores como qualidade do sono e saúde física também modulam a atenção. A análise integrada desses domínios, como ocorre em um rastreio clínico estruturado, reduz o risco de interpretações simplistas.
Referências
American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - Revisão de Texto.
Barkley, R. A. (1997). Behavioral inhibition, sustained attention, and executive functions: Constructing a unifying theory of ADHD.
Riccio, C. A., Sullivan, J. R., & Cohen, M. J. (2010). Neuropsychological Assessment and Intervention for Childhood and Adolescent Disorders.
Fonseca, R. P. (2019). Funções Executivas na Educação.
Camargos Jr., W., & Hounie, A. G. (2005). Manual Clínico do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade.
Oliveira, M., Mograbi, D., & Charchat-Fichman, H. (2016). Rey Auditory Verbal Learning Test, Verbal Fluency and Stroop: Normative Data and Validity for Brazilian Children.
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