A Saúde física e sintomas cognitivos no TDAH

A importância da saúde física e rotina diária

MODULADORES DO TDAH

Neuropsicólogo Mauricio Maluf Barella CRP 06/178046

12/15/20256 min ler

Aspectos da saúde que interferem no TDAH
Aspectos da saúde que interferem no TDAH

Condições médicas que mimetizam ou exacerbam sintomas de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) são frequentemente negligenciadas, o que pode levar a diagnósticos incorretos e tratamentos inadequados. De fato, é essencial que profissionais de saúde estejam cientes de como doenças endócrinas, uso de medicações, dor crônica e condições neurológicas impactam a cognição e a autorregulação. Muitas dessas condições podem atuar como fatores de confusão, dificultando a diferenciação entre sintomas do TDAH e manifestações clínicas de outras patologias. Este fenômeno destaca a necessidade de uma abordagem holística e integrada para a saúde, protegendo contra falsos positivos e melhorando a precisão diagnóstica.

Doenças Endócrinas e Sintomas Cognitivos

As doenças endócrinas, como o hipotiroidismo, podem mimetizar sintomas de TDAH. O hipotiroidismo, por exemplo, está frequentemente associado a dificuldades de concentração, lentidão cognitiva e falta de motivação, sintomas que também são característicos do TDAH. A disfunção da tireoide afeta a regulação do metabolismo e, consequentemente, pode interferir nas funções cognitivas. Isso ocorre porque a produção inadequada de hormônios tiroidianos afeta diretamente o funcionamento do sistema nervoso central, levando a déficits de atenção e memória.

Além disso, o diabetes mellitus, especialmente quando mal controlado, pode provocar flutuações nos níveis de glicose sanguínea, resultando em sintomas semelhantes aos de TDAH, como irritabilidade, falta de foco e impulsividade. Alterações nos níveis hormonais e metabólicos podem, portanto, desencadear um quadro clínico que pode ser confundido com transtornos neuropsiquiátricos, como o TDAH.

Medicações e Impactos Cognitivos

O uso de medicamentos, particularmente aqueles que afetam o sistema nervoso central, também pode exacerbar ou mimetizar sintomas cognitivos típicos do TDAH. Certas substâncias psicoativas, como antidepressivos, antipsicóticos e benzodiazepínicos, podem induzir efeitos adversos como lentidão cognitiva, dificuldades de concentração e sonolência excessiva. Em alguns casos, o uso de medicamentos pode mascarar ou simular déficits de atenção e impulsividade, levando a um diagnóstico errôneo de TDAH.

Além disso, tratamentos com medicamentos para condições psiquiátricas, como os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), podem ter efeitos colaterais que interferem na concentração e no controle emocional, o que poderia ser confundido com sintomas típicos do TDAH, especialmente em populações que já apresentam predisposição a transtornos de atenção.

Dor Crônica e Funções Cognitivas

A dor crônica é outra condição frequentemente negligenciada que pode afetar diretamente a cognição e o comportamento, imitando ou exacerbando os sintomas do TDAH. Pacientes com dor crônica, como a dor associada à fibromialgia ou doenças articulares, podem apresentar dificuldades significativas de concentração, irritabilidade e fadiga. Essas condições não apenas afetam o bem-estar físico, mas também têm um impacto psicológico profundo, resultando em dificuldades em manter a atenção e em regular o comportamento, sintomas que se sobrepõem aos do TDAH.

Estudos demonstram que o sofrimento crônico pode comprometer áreas do cérebro responsáveis pela autorregulação emocional e pela atenção, criando um quadro clínico que é facilmente confundido com o TDAH. A dor constante pode levar à diminuição da capacidade de concentração e à piora da memória de trabalho, habilidades cognitivas essenciais para o funcionamento acadêmico e profissional.

Condições Neurológicas e Impacto Cognitivo

Condições neurológicas, como lesões cerebrais traumáticas, epilepsia e doenças neurodegenerativas, também podem simular ou exacerbar os sintomas do TDAH. As lesões cerebrais, por exemplo, afetam diretamente a função executiva e a memória, áreas frequentemente comprometidas no TDAH. Crianças e adultos que sofreram lesões traumáticas no cérebro podem apresentar dificuldades de atenção e impulsividade devido a danos nas áreas pré-frontais do cérebro, regiões críticas para a autorregulação e o controle da atenção.

A epilepsia, especialmente a associada a convulsões parciais ou generalizadas, pode interferir com os processos cognitivos, gerando sintomas de desatenção e lapsos de memória, que se assemelham aos observados no TDAH. A falta de controle sobre as crises pode também afetar a capacidade de concentração, levando a um desempenho acadêmico e social comprometido. Da mesma forma, doenças neurodegenerativas como a doença de Parkinson ou demências precoces podem impactar a atenção e o processamento cognitivo, resultando em dificuldades que podem ser confundidas com sintomas do TDAH.

A Necessidade de uma Visão Integrada da Saúde

A análise das condições médicas subjacentes é essencial para evitar diagnósticos errôneos de TDAH e para garantir que as intervenções sejam adequadas. Quando um profissional de saúde não considera a possibilidade de que uma doença médica possa estar exacerbando os sintomas de TDAH, pode-se incorrer em diagnósticos precipitados e, portanto, em tratamentos inadequados. Por exemplo, a abordagem terapêutica para o TDAH envolve frequentemente o uso de estimulantes, mas se os sintomas forem causados por uma condição médica subjacente, como um distúrbio endócrino ou um transtorno neurológico, o uso de medicamentos pode ser ineficaz ou até prejudicial.

Por essa razão, uma avaliação neuropsicológica abrangente que leve em consideração tanto os aspectos médicos quanto os psicológicos é fundamental para garantir um diagnóstico preciso. Essa avaliação deve incluir uma revisão detalhada do histórico médico, a consideração de condições comorbidas, como transtornos de humor ou de ansiedade, e a observação de como essas condições podem afetar a cognição e o comportamento.

Conclusão

É crucial que profissionais de saúde, especialmente psicólogos e psiquiatras, adotem uma abordagem integrada para entender e tratar sintomas de TDAH. Ao considerar as possíveis condições médicas que podem mimetizar ou exacerbar os sintomas, é possível evitar diagnósticos incorretos e fornecer tratamentos mais eficazes. Doenças endócrinas, uso de medicações, dor crônica e condições neurológicas têm um impacto significativo na cognição e autorregulação, e devem ser cuidadosamente avaliadas em qualquer investigação de TDAH. Uma visão holística da saúde, que integre os aspectos médicos e psicológicos, é essencial para uma compreensão completa dos sintomas e para o desenvolvimento de intervenções terapêuticas eficazes.

Condições de saúde física, uso de medicações e dor crônica podem impactar diretamente a atenção e a memória, mimetizando sintomas de TDAH. A inclusão desses dados em um rastreio clínico estruturado reduz o risco de interpretações isoladas ou precipitadas.

Referências Bibliográficas

  1. American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição – Revisão de Texto. Washington, DC: APA Publishing.
    ➤ Reforça a importância da exclusão de causas médicas antes do diagnóstico de TDAH.

  2. Camargos, W., & Hounie, A. G. (2005). Manual Clínico do Transtorno de Déficit de Atenção / Hiperatividade. Nova Lima: Editora Info.
    ➤ Discussão sobre diagnósticos diferenciais e comorbidades médicas no TDAH.

  3. Riccio, C. A., Sullivan, J. R., & Cohen, M. J. (2010). Neuropsychological Assessment and Intervention for Childhood and Adolescent Disorders. Hoboken, NJ: John Wiley & Sons.
    ➤ Detalha os efeitos de condições como epilepsia, TCE e doenças endócrinas na cognição e comportamento infantil.

  4. Oliveira, R. M., Mograbi, D. C., & Charchat-Fichman, H. (2016). Normative data and evidence of validity for the Rey Auditory Verbal Learning Test, Verbal Fluency Test, and Stroop Test with Brazilian children. Psychology & Neuroscience, 9(1), 54–67.
    ➤ Estudo que relaciona desempenho cognitivo com idade e fatores neurológicos.

  5. Conzensa, R. M. (2020). Neurociência e Mindfulness: Meditação, equilíbrio emocional e plasticidade cerebral.
    ➤ Aborda mecanismos de autorregulação e cognição sob influência de fatores fisiológicos.

  6. Hutz, C. S., Bandeira, D. R., & Trentini, C. M. (2018). Avaliação Psicológica da Inteligência e da Personalidade. Porto Alegre: Artmed.
    ➤ Explica como condições clínicas e neurológicas impactam testes de atenção e inteligência.

  7. Yates, D. B., Silva, M. A., & Bandeira, D. R. (2019). Avaliação psicológica e desenvolvimento humano: Casos clínicos. São Paulo: Hogrefe CETEPP.
    ➤ Estudos de caso destacando dificuldades cognitivas influenciadas por variáveis médicas e ambientais.

  8. Fonseca, R. P. (2023). O papel das funções executivas na aprendizagem e no comportamento. Revista Neuroeducação, 42-50.
    ➤ Reforça o impacto das funções executivas na atenção e autorregulação, e como essas podem ser alteradas por quadros clínicos e emocionais.

  9. Almeida, K. M. (2019). Como avaliar em neuropsicologia do sono. São Paulo: Pearson Clinical Brasil.
    ➤ Evidencia como distúrbios do sono afetam funções executivas e mimetizam sintomas de TDAH.